A Caçada ao Encoxador Misterioso – Capítulo 8
(Links para os capítulos anteriores ao final do texto. Acompanhem!)
- Fique calmo Dog… Já vamos estar indo andar um pouco. Tenho que estar acabando aqui, não quero mais esse sem vergonha andando pelas ruas.
- Huf!
Respondeu Dog enquanto Zé seguia em sua cruzada intelectual contra o “Encoxador Misterioso” às 4 horas da manhã. Há dias que ele passava suas noites em claro e sabia que só teria paz com a resolução do problema. Na última vez ele conseguiu um pouco de ação que tanto perseguiu, porém inútil. Prendeu um desclassificado sem massa cinzenta que nada poderia ter feito a não ser sucumbir à mente e habilidade de Zé Gerúndio. Pobre coitado…
Analisando cada forma de ataque e perfil de vítimas pela “enésima” vez, Zé consertava seu chinelo ainda avariado pelo confronto do ônibus, e Dog caçava implacavelmente uma pulga. Zé olhava distraído para as fotografias em seu mural tentando ter alguma luz sobrenatural que o levasse à captura do Encoxador. Foto a foto e olhava as garotas atacadas. Olhava também na parede próxima todas as reportagens fixadas sobre a captura do copiador e sentia uma mescla de raiva e decepção lhe consumindo, quando se deparou ao lado de todo o circo montado com as informações sobre o caso, em cima de um móvel completamente torto e apoiado por um tijolo, um porta-retrato com a foto da única mulher que fazia Zé Gerúndio suspirar. “Ainda bem que ela não está no mural”, pensou Zé enquanto admirava profundamente as feições daquela que fazia seus joelhos tremerem. Mulata, cabelos alisados e aloirados, corpo escultural, quase que um monumento, e sempre, pra causar enxurradas de suor em Zé, roupas pequenas… muito pequenas. Valcicléia era seu nome. Já estiveram juntos algumas vezes, mas o que talvez impressionasse mais era que ela não se apegava como as outras que passavam pela cama de Zé. A repórter Juliana Maçã já tentara encontrá-lo por mais de uma dúzia de vezes após a grande noite, e sempre era assim.
Enquanto sentia saudades, Zé assustou-se com o toque de seu telefone secreto. Uma espécie de “telefone vermelho” tocando em às 5 horas. Quem seria? O prefeito? O governador? O presidente? Ou Valcicléia? Eram as únicas pessoas que tinham aquele número. Ele atendeu rápido, pois uma ligação naquela linha e àquela hora significava, de uma forma ou de outra, algo bastante importante.
- Alô… Em que posso estar ajudando?
- Oi meu nego cheiroso!
Zé estremeceu.
- Val? Saudades de você…
- Tá nada! Com tanta mulher no seu pé?
- Ah Val, mas sabe que você é diferente, não sabe?
- Tá bom… sei.
- Mas o que você precisa? É só falar. Um jantar? Quer passear? Eu vou estar saindo com o Dog daqui a pouco e passo aí…
- Hoje não, meu nego. Preciso que me ajude. Tenho que ir à casa de minha irmã do outro lado da cidade, mas to com muito medo de pegar um ônibus e encontrar esse tal encoxador. Sei que você tá trabalhando no caso e pensei que talvez pudesse me proteger…
- Pode estar tendo certeza! Você não vai sozinha mesmo…
Zé sentiu o coração acelerar só pela possibilidade de passar algum tempo com Valcicléia. Arrumou suas coisas, vestiu sua melhor camiseta que ganhou numa promoção do supermercado do bairro e foi saiu ao encontro de sua musa.
Dog protestou, mas Zé não tinha opção. Andando rápido no melhor estilo “ponto e vírgula”, ele atravessou as ruas com considerável velocidade. Aquele safado não iria chegar perto dessa mulher. Dessa não!
Zé encontrou sua morena, talvez a musa de sua vida. No caminho pegou uma rosa no jardim de dona Cida para presentear Valcicléia. Ao chegar, com o romantismo mais penetrante já visto, Zé entregou a flor e a abraçou com carinho. Ela na hora comentou:
- Eita Zé! Dona Cida vai lhe pegar qualquer dia desses…
- Tudo bem, minha nega! Por você eu faço isso e muito mais.
- Tá bom… Mas temos que ir porque tô atrasada.
E seguiram em direção ao ponto de ônibus. O coletivo passou e ambos prepararam-se pra subir. Algumas meninas no ponto aguardavam também. Bem bonitas. Pareciam uma equipe de vôlei ou algo parecido, pois estavam todas uniformizadas com aqueles agasalhos tradicionais e eram bem atléticas. Enfim, se não fosse vôlei, era algum esporte na certa. Valcicléia subiu, mas as meninas chegaram ao mesmo momento e Zé, diante de seu cavalheirismo incontrolável, não pode fazer nada senão deixá-las passar em sua frente, o que o separou de sua musa. Eram entre dez e quinze ninfetinhas que aparentavam ter algo em torno dos 17 anos. Passou pela cabeça dele aquilo ser um prato cheio para o Encoxador, porém, ele se desvencilhou dessa idéia, afinal de contas nem o Encoxador teria tanto azar, nem o Zé poderia ter tanta sorte.
Na confusão, Valcicléia passou pela catraca e foi até além da metade do ônibus, próxima à porta de saída, enquanto Zé ficou preso antes do cobrador, sem ter o que fazer.
Valcicléia olhava de longe pra Zé Gerúndio e vice-versa. Ambos atentos e preocupados com essa distância. As meninas estavam todas à frente de Zé e algumas não paravam de olhá-lo, porém, dessa vez ele só tinha olhos pra sua musa mais ao fundo. As garotas tagarelavam muito e abalavam a atenção do detetive-herói. Ele olhava vigiando o ônibus todo de forma frenética, afinal, o Encoxador poderia reconhecê-lo. O vilão tinha essa vantagem. Em todo o caso, após algumas tentativas de passar pela multidão de meninas e de todos que estavam naquele ônibus lotado, ele acabou por esperar um ponto em que muitas pessoas desceriam proporcionando dessa forma sua chegada até Valcicléia.
O tempo passava e nada das pessoas descerem. Situação muito difícil. Ele olhou pra frente e viu o motorista cortejando uma garota. Viu um casal de velhinhos conversando sobre a quantidade de remédios que tomam. Também avistou um casal de namorados bem abraçados e pensou que essa menina estava bem protegida quando viu a coisa mais esquisita de sua carreira. No que foi buscar fixar-se em Valcicléia de novo, ela estava no mesmo lugar, só que agora dava a impressão de que flutuava.
“Coisa mais esquisita…”. Pensou Zé enquanto tentava chamar a atenção dela pra saber se estava tudo bem. Nisso ele reparou numa coisa que o encheu de desespero. Valcicléia estava sendo atacada!
“Filo duma…”. E avançou. Sacou de seu bilhete e passou pela catraca. O ônibus era cheio demais. Zé quis se apoiar nos balaustres superiores e passar por cima das cabeças dado o desespero que tomava conta dele. As meninas do vôlei ele passou uma a uma, envergando seu corpo ao máximo para não desrespeitar. “A Val não, peloamordedeus, a Val não”. Depois uma velhinha, e essa era digna de mais cuidado ainda, e se não tivesse nessa situação crítica, Zé obrigaria algum marmanjo a deixá-la sentar, porém não havia tempo pra isso. Zé se envergava tanto que chegava a perder Valcicléia de vista em meio a tanta gente. “Desgraçado! Minha flor não!”. O homem grande a sua frente forçou dificultando a passagem dele, mas Zé deu-lhe uma trombada já em completo pânico e o tirou da frente de forma brusca. Depois o casal de namorados que avistara antes. O rapaz protegeu sua menina e Zé respeitou passando rápido e abaixado entre mochilas, bolsas e braços. “Já tô chegando, minha nega”. E realmente estava.
Zé, obstinado e furioso, parou de frente aos dois. O Encoxador largou brusca e imediatamente Valcicléia que espatifou-se no chão. Zé olhou bem para o Encoxador Misterioso, e atento teve certeza de que era ele. Homem branco, olhos e cabelos castanhos, enfim, aparência bem comum contrariando a todas as expectativas. Com certeza reconhecera seu caçador. Ambos se olharam e Zé preparava o bote. “Vou estar dando uma surra nesse desavergonhado que ele vai estar querendo virar mulher pra estar sendo encoxado também, filo duma rapariga!”.
Na hora exata do bote, o ônibus parou e abriu a porta. O Encoxador Misterioso olhou pra Zé quase que em tom de despedida e pulou pela porta rapidamente em meio a todos que desciam naquele ponto. Zé fez menção de ir atrás dele, era sua grande chance, mas no final das contas, Zé olhou pra sua pequena Valcicléia e foi em seu encontro para acudi-la e consolá-la.
- Calma minha nega… calma. Você tá bem?
- Ah… É… Não sei…
- Respira fundo. Bem fundo.
- Meu nego, vou ficar melhor se você pegar esse desgraçado!!!
Era de tudo que Zé precisava. Ele a beijou, abraçando-a com força e se virou pra sair. O ônibus estava parado devido à confusão e por isso, conseguiu sair no mesmo ponto nem um minuto depois. Calmo pelo incentivo de sua pequena e aguerrido pelo incentivo de alguns dos passageiros que perceberam o que acontecera, Zé partiu determinado capturar o Encoxador Misterioso.
—
Acompanhem os capítulos anteriores:
1- O Ataque do Encoxador Misterioso (blog Dicas Sobre Nada);
2- O Arquiinimigo de Zé Gerúndio (blog Documento Tupiniquim);
3- Encoxando na TV (blog Dicas Sobre Nada);
4- A Investigação (blog Documento Tupiniquim);
5- Empatando a Encoxada (blog Dicas Sobre Nada);
6- Um Encoxador Amador (blog Documento Tupiniquim);
7- Encoxando a Morenaça (blog Dicas Sobre Nada);
Tags: comedia, Conto, gerundismo, humor, Série: Zé Gerúndio e Dog, serie, ze gerundio


May 23rd, 2008 at 12:01 pm
Agora a caçada vai esquentar…
May 25th, 2008 at 1:28 pm
O que foi isso? Será que ele finalmente estará capturando o safado? XD
May 25th, 2008 at 7:31 pm
Sei não…, nada contra o Encoxador, afinal, quem não gosta de dar uma encoxada…, mas se encoxar minha mulher encho ele de porrada!
Vai nessa Zé!
June 20th, 2008 at 5:34 pm
[...] Encoxador Amador (blog Documento Tupiniquim); 7- Encoxando a Morenaça (blog Dicas Sobre Nada); 8- A Musa de Zé Gerúndio (blog Documento Tupiniquim); 9- Caçada Implacável (Ambos os [...]