Zé Gerúndio Não Pega Fila!
- Posted by fernandocury on September 27th, 2009
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Zé Gerúndio come seu pão na chapa em pé, com a barriga encostada no balcão do bar do Seu Justino.
Quem o conhece sabe que aquele olhar estrábico, perdido no horizonte, significa preocupação.
Dog, vira-lata e fiel escudeiro, que o conhece melhor do que ninguém, sabe que seu dono está angustiado. Disse para Juliana Maça, a repórter da TV que caiu de amores por ele, que “estaria investigando a fuga da Clínica”, e que “estaria entrando no MITs”, para onde sua infalível intuição apontava.
Mas nenhuma das pesquisas e investigações que fez o ajudou a encontrar uma maneira de entrar lá.
- Seu Justino, o senhor pode estar trazendo mais um café?
Seu Justino é fã do nosso herói. Tem um pôster dele, autografado, pregado na porta do banheiro masculino. “- Prá disser que é prá macho!”, justificou na época.
- Tome aqui, meu amigo Zé, e não fique aperreado, que isso me corta o coração…, as coisas vêm até a gente, num sabe?
Zé toma de um só gole o café quente, forte e sem açúcar, sem fazer careta.
Seus ouvidos aguçados chamam levam seus olhos para uma notícia na televisão. Um chega depois do outro.
A repórter bonitinha do jornal da manhã informa que o MITs Brasil, reconhecida instituição de pesquisa e desenvolvimento, está contratando pessoas comuns para trabalharem como “Assistente de Desenvolvimento de Soluções”. Não é necessária experiência anterior e basta o candidato saber “expor a visão e a expectativa do usuário”, “participar de testes e simulações de uso das novas tecnologias” e “ajudar na divulgação e demonstração de uso destas novas tecnologias”. Basta mandar Curriculum Vitae.
“Expor…, participar…, ajudar…, isso aí eu sei fazer! Vou estar entrando no MITs, finalmente.”
Dog vê a expressão do seu dono mudar, daquele detetive cabisbaixo de uns tempos atrás, procurando algo à altura do seu talento, para a do detetive implacável, disposto a derrotar os criminosos e a cuidar dos caprichos das donzelas indefesas, uma coisa de cada vez.
Como faz sempre que a ação começa, Dog coloca o rabo entre as pernas e volta correndo para embaixo da cama de Zé, no QG.
- Veja Seu Firmino, como Dog é inteligente. É só eu estar começando a agir para ele estar indo cuidar da choupana.
- Puxou o dono, Zé!
Zé Gerúndio sabe que para ter chances no processo de seleção, não basta sua inteligência aguçada. Será preciso dar um tapa na aparência, trocar sua bermuda e sua camiseta por um terno, e, o que para ele será o horror dos horrores, trocar suas inseparáveis havaianas por sapatos sociais.
Mas isso que deterá nosso detetive. Prometeu para a doce Juliana Maçã que entraria no MITs, e lá ele entrará.
- Seu Firmino, deixa eu estar usando o telefone?
- Pega lá Zé!
Zé Gerúndio tem de cabeça o telefone de cada um das centenas de colaboradores que tem.
- Ô Darcelei, aqui é o Zé!
- Grande Zé Gerúndio! O que posso fazer por você, meu camarada?
- Darcelei, estou precisando de um terno para hoje. Mas ter que ser coisa fina. E completo: cueca, camiseta, camisa, gravata, meias, calça e paletó. Tu sabe meu número.
- Claro que sei Zé. Sapatos também?
- Quarenta e quatro bico largo, como sempre, Darcelei!
- É pra já Zé. Tenho um conjunto novinho aqui, esperando para usar. Mando para onde?
- Aqui pro Bar do Seu Justino. Só que tem que estar sendo prá agora!
- Só desligar e coloco o motoboy no caminho Zé. Mas ele precisa pegar de volta às 13:30h. O enterro será às 15:00h. Certo?
- Nos conforme, Darcelei!
- Grande Zé!
Seria preciso fazer a barba e cortar o cabelo também, mas Zé prefere a cara de “barba por fazer”, que acrescenta um toque rebelde à sua aparência máscula e viril. Quanto ao cabelo, um pouco de goma e o pente que ele leva no bolso da bermuda já resolvem.
Zé Gerúndio não vai mandar Curriculum Vitae para o MITs. “Isso é coisa de quem tem deploma!”, é o que ele pensa.
E, de qualquer forma, sabe que receberão centenas ou milhares de curriculuns, e que o seu pode ficar no limbo.
Sua estratégia de atuação sempre foi a ousadia. Colocar a cara para bater, pois “homem que é homem vai prá cima, sem medo do perigo”, é o seu lema.
Ele vai aparecer no MITs e conseguir sua entrevista, passando na frente dos milhares de candidatos.
Dez horas da manhã e o destemido defensor dos fracos e oprimidos, e das donzelas em geral, chega ao MITs e é recebido na recepção. Sua figura se destaca pelo andar coxo, prejudicado pelos sapatos um pouco apertados que Darcelei mandou. “O terno caiu bem, mas não é sempre que o defunto tem o pé igual do meu…”, constata.
- Bom dia, o Senhor tem hora marcada?
Agora, tudo depende da arte do convencimento e da simulação.
- A senhorita está muito bonita hoje!
- Muito obrigada!
- Têm muitas mulheres comprando lentes de contato para terem olhos bonitos como os seus.
- Obrigada. O Senhor é muito gentil. Mas…, o Senhor tem hora marcada?
- Sim Senhorita, com a… a….
Zé Gerúndio remexe os bolsos do paletó.
- Que coisa, anotei na minha agenda, mas ela ficou no outro paletó.
- Não tem problema, o Senhor sabe a que horas seria?
- Dez e quarenta e cinco!
- Pois não, vamos ver, com a Senhorita Daniela?
- Essa mesmo!
- Estranho, ela deixou esse horário vago, mas isso acontece.
- Claro! Vocês sempre estão muito ocupadas.
- O Senhor pode olhar para a câmera, para eu fazer o cadastro?
Zé Gerúndio foca seu olhar estrábico e sorri para a fotografia. A recepcionista nota a beleza ímpar do candidato.
- Coloque este crachá. Quarto andar, sala 41.
- Obrigado.
Zé passa pela catraca, cumprimenta o segurança e entra no elevador.
- Quarto andar, por favor.
A recepcionista, moradora da região onde Zé atua, o reconhece.
- Com licença moço, mas…, o Senhor não é aquele detetive?
- Qual detetive exatamente, senhorita?
Zé não gosta de ser confundido com aquele detetive inglês, metido e almofadinha.
- O que prendeu o tarado dos ônibus.
- Em carne, osso e pescoço, senhorita.
Chegam ao quarto andar. Zé autografa um papel para a ascensorista.
A recrutadora está na sala, com a porta aberta, onde Zé bate delicadamente para chamar a atenção. Ela levanta os olhos sobre os óculos redondos e olha para ele.
- O Senhor é?
- José Gerúndio, às suas ordens!
- Meu nome é Daniela! Por favor, sente-se…, não me lembro do seu nome na relação das entrevistas…, o Senhor tem horário marcado?
Zé sabe que a mesma estratégia não funciona duas vezes. Chega a hora de mostrar suas qualidades e influenciar favoravelmente a moça.
- Senhorita, vi o anúncio do MITs hoje pela manhã, quando estava tomando meu café. Conclui que uma pessoa diferenciada como eu poderia estar passando despercebida no processo de seleção.
- Então o Senhor fez o quê?
- Vim para cá, e aqui estou!
- O Senhor furou a fila de candidatos?
- Não exatamente. Apenas estou tomando a iniciativa de não estar me comportando como todos os outros, quero dizer, estar mandando um CV e ficar esperando a resposta. Procurei a oportunidade de estar aqui para a entrevista e aqui estou.
A entrevistadora, que estava com cara de poucos amigos, abre um sorriso e diz.
- Pessoas cheias de iniciativa como o Senhor é o que precisamos aqui no MITs. Sabe que será o primeiro a ser entrevistado?
Mais uma vez a percepção aguçada de Zé Gerúndio o coloca em posição favorável dentro de uma questão.
- A Senhorita pode estar perguntando o que quiser!
- O quê o senhor sabe fazer?
- A Senhorita veja, eu sou um autômato…, quer dizer, autônomo. Presto serviços para as pessoas que precisam resolver alguma questão. Elas me explicam tudo direitinho e eu resolvo as coisas para elas.
- E como o Senhor resolve as questões?
- Cada questão estou resolvendo de um jeito. A Senhorita sabe que cada problema tem os seus detalhes, então, procuro estar aplicando a solução mais prática e mais objetiva.
- O senhor trabalha como Consultor, ouvindo solicitações e encontrando soluções, muito bom. Quanto cobra pelo seu trabalho?
- Geralmente as pessoas me dão alguma coisa. Quando é uma pessoa que, sabe como é, está desprovida momentaneamente de recursos, eu nem vou estar cobrando pelos serviços.
- O senhor também faz filantropia, muito interessante.
A recrutadora percebe estar com alguém especial, ousado, bem vestido, com um jeito ímpar de ser. Experiente, ela não quer selecionar mais um dos pingüins vestidos de preto que vêm em bando dizendo as mesmas coisas, apregoando diplomas, títulos, certificações e tudo o mais. Ela quer alguém diferente, realmente diferente.
- Senhor José Gerúndio, vejo que tem estilo, iniciativa, além de um jeito peculiar de falar. Diga-me, por qual motivo eu o contrataria para a vaga aqui no MITs?
Zé Gerúndio sente que está quase conseguindo seu objetivo. A recrutadora passou para ele a responsabilidade de justificar sua contratação. Muito esperta, a moça. Quem sabe, um dia desses, ela estará deitada em seu colchão de molas, ao som de Lindomar Castilho, com Dog vigiando a porta do QG.
- A Senhoria está me colocando uma questão difícil. Não vou estar mostrando falsa modéstia, nem estar me valorizando. Sabemos que não sou especialista no que o MITs faz, mas, citando o grande Bernard Shaw: “O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.”.
Ele leu essa frase em um velho almanaque de farmácia.
- Muito boa citação, Senhor José Gerúndio, continue, por favor.
- Sou um homem do povo, sei do que o povo precisa, e do que o povo gosta. Aqui no MITs posso estar colaborando para estar melhorando a vida das pessoas.
Zé Gerúndio conseguiu disfarçar sua verdadeira intenção, que é chegar até a responsável pela incidência cada vez maior de problemas mentais entre os profissionais de TI.
A recrutadora, por sua vez, sabe que Zé Gerúndio tem algumas das qualidades especificadas na requisição de pessoal que recebeu. Não tem idéia do que farão com as pessoas comuns que serão contratadas, mas, não se importa com isso. “A Grande Padronizadora”, como a chefe é conhecida, costuma acertar sempre.
- Senhor José Gerúndio, vou providenciar sua contratação. Seja bem vindo MITs.
- A Senhorita está fazendo a coisa certa!
Despedem-se e Zé deixa a sala. Esperando o elevador, um pensamento o incomoda:
“Será que o Darcelei vai conseguir estar me mandando um terno diferente todo dia?”
—
E seguem links para capítulos dos outros autores:
Índice dos capítulos já publicados
Parte II – Entrar no MITs
Capítulo 5 – Reflexões da Grande Padronizadora e do Sopa Letrista
Capítulo 6 – Zé Gerúndio não pega fila
Capítulo 7 – Louco na medida certa
Capítulo 8 – Encoxando a Recrutadora
Parte I – A Descoberta
Capítulo 1 – A Grande Padronizadora
Capítulo 2 – Zé Gerúndio em “Os MITs da vida”
Capítulo 3 – Após a Fuga
Capítulo 4 – Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso





