É carnaval. O negócio é se divertir insanamente. Perder a linha. Viajar pras melhores partes do Brasil sob agradáveis 40ºC, comer do bom e do melhor nas melhores praias do mundo, ou mesmo curtir um “ninguém é de ninguém” atrás do trio elétrico em Salvador, folia com os blocos de Olinda, ver o tradicional carnaval carioca, ou mesmo pegar uma praiazinha onde acontece também o tal fenômeno do “ninguém é de ninguém”. É isso. Coisa do Brasil quer você e eu concorde ou não, isso é uma ambição do povo tupiniquim (nem todos, mas em geral é assim).
Contudo, nem sempre a grana dá. Você sabe bem como é… Vem chegando o carnaval e poucos têm um tostão no bolso pro almejado “ninguém é de ninguém”. Feriado em branco a vista. Joguinho de buraco com a família, a amiga da sua tia que sempre dá em cima de você e desfile das escolas de samba no plim-plim. Uma caixa de cerveja na geladeira e beba com moderação, mesmo porque se não moderar acaba logo, e no fim você vai acabar pegando a amiga da sua tia. É aí que a ginga e malandragem brasileira surgem, afinal, filar um churrasquinho ou algo que o valha é de praxe, né?
- Toninho? É o Jairo!
- Fala Jairo! Tranquilo?
- Até demais. To sem fazer nada aqui… não vai rolar nada na casa de alguém da galera?
- Pô cara. Não to sabendo… To aqui em Maresias.
- Ah! Vai se f…
O Jairo, nosso exemplo de hoje, não é de desistir fácil e começa a olhar possíveis vítimas em sua agenda do celular.
- Boa tarde. Posso falar com o Artur?
- Pode sim. Só um instante…
Agora vai! Pensou o Jairo, que já se animava quando…
- Alô?
- Artur? É o Jairão! Tá tranquilo, meu velho?
- Nem tanto. To na correria pra descer e encontrar o pessoal em Maresias.
Faro aguçado, Jairo sente o cheiro do “ninguém é de ninguém”.
- Pô Artur! Quem vai nessa?
- To eu, a Ana e o Gordo.
- Aí tá bonito!
- Por quê?
- Porque cabe mais um! Tem como? Me arrumo rapidinho…
- Claro que tem, Jairão… Só que nós estamos todos duros, e precisamos dividir a grana da gasolina, pedágio, e o rango. Mas fora isso, olha que moleza… O lugar tá garantido e na faixa!
- Tsc! Deixa pra lá. To muito duro mesmo.
- Então tá. Fica pra Páscoa.
- Que Páscoa? Que porcaria de Páscoa?! Carnaval sim que é feriado!
- Pois é… Ano que vem tem outro.
- Tá bom… Tá bom… Sabe se alguém vai ficar aqui?
- Só sei de você e do Zóio-torto. Agora eu vou porque os dois já tão no carro esperando… fui!
E Jairo se abateu. Sabe que o Zóio-torto é sempre duro igual a ele. Daquele mato não sai coelho, porém não custa tentar.
- Alô! Posso falar com o Zóio-torto?
- Não tem ninguém com esse nome. Tchau.
Zóio-torto… como é o nome dele mesmo? – Pensou nosso folião guerreiro atentando que chamou pelo apelido.
- Alô? Artur? Eu de novo. Como é o nome do Zóio-torto mesmo?
- Puts. Não sei mesmo… Deixa eu perguntar pro pessoal aqui.
- Rapidinho. Meus créditos tão acabando.
- Jeferson. O Zóio-torto chama Jeferson.
- Valeu!
Agora vai.
- Alô. Posso falar com o Jeferson?
- Agora sim. Só um instante.
—
- Alô?
- Zóio-torto! É o Jairo. Vamos fazer o que nesse carnaval? Heim?
- Pô cara. Você não foi pra Maresias também… Chega aqui que vai rolar um churras daqueles.
- Opá! To indo nesse momento.
- Só trás dez paus pra interar na carne e na cerveja, beleza?
- Cacete. Deizão??? Tá assando filé mignon aí, pô? Deixa quieto. To mais duro que pau de tarado.
—
- Mãe! Aquela amiga da tia Nana vem aí pra parceria no buraquinho? Eu to que to hoje…
- Vem sim. Mas se ela der em cima de você hoje, boto pra correr.
- Ah mãe… É carnaval. Ninguém é de ninguém.