Zé Gerúndio e Dog em “Um Furto de Ano-Novo”
Sunday, December 28th, 2008
Dia claro. Véspera de ano-novo e Zé Gerúndio e Dog sentados na varanda do QG observam o movimento na rua. Tudo tranqüilo. Nada de confusões passiveis da atenção da dupla.
As famílias passavam de um lado a outro carregando recipientes envoltos em papel alumínio, que obviamente tratavam-se de pratos festivos para as ceias de réveillon. Todos sempre de branco, essas pessoas não paravam de passar pessoas até anoitecer, onde já se via meninos soltando fogos de artifício e adultos segurando seus copos já cambaleando de um lado ao outro, aquela coisa de todo ano-novo.
Zé Gerúndio não gostava muito dessas festividades, que para ele não passava de uma boa oportunidade de ocorrerem problemas. Bandido do bom vê sempre boa chance em qualquer situação diferente, especialmente se puderem se aproveitar na pureza das pequenas protegidas do Zé. Ah! Olha só a Celinha e seu vestidinho branco a um palmo de seus joelhos… E a Waldirene com aquela blusinha transparente… Enfim o ano-novo servia de alguma coisa. Dog não aprovava ficar no isolamento, o cão gostava de farra. Porém, na visão de Zé, isso era um preço a ser pago pela dupla defensora da honestidade e daqueles que são de bem (especialmente “daquelas”).
Os dois quietos exceto pelos suspiros de Dog, observavam que o movimento aumentava. Correria, brincadeiras e risadas enchiam o ar na rua do QG de Zé Gerúndio. Sentado em sua cadeira de praia avariada, Zé se levanta e boceja com quem já se preparava pro adormecer e acordar já no ano seguinte. Dog dava sinais de que não se conformava com a situação. Zé resolve observar mais um pouco. Olha pra Dog que lhe abana o rabo esperançosamente. O fiel escudeiro não dera sinal algum de que iria ocorrer algum tipo de problema. Estava seguro e observava todo o movimento querendo muito participar. Zé sabia bem que, se o cão corresse fazendo menção de fuga, era a deixa para a ação. Tudo calmo. Nada além de festa e bêbados.
- Olhe Dog, não adianta fazer essas caras. Temos a obrigação de estar ficando sempre alerta! Não tem jeito.
- UNF…
Responde Dog quase que num muxoxo já conhecendo bem seu parceiro e sabendo que não havia remédio legal para entrar na brincadeira do pessoal da rua. Essa era a deixa. Legal ou ilegal, ele queria estar no meio de todos. Dog procurou ficar quieto, pois já havia percebido que Zé dava sinais de se entregar ao sono. Zé comeu uma bela buchada de bode no jantar e o corpo precisava de descanso. Buchada de bode era quase que uma missão extremamente perigosa pra Zé Gerúndio, nosso detetive e herói. Zé levantou-se e caminhou, manquitolando como sempre, em direção ao interior do QG. Dog permaneceu imóvel, pois com o estrabismo do parceiro, era difícil saber ao certo pra onde ele focava sua atenção.
Zé entrou. Sentou-se perto da porta querendo lutar para manter-se alerta enquanto se arrependia do ataque à buchada de bode. Cochilou… Queixo no peito e suave ronco anunciavam que ele logo pegaria no sono mais profundo. Nisso…
- Zé!!! Me socorra Zé! Pelo amor de São Crispin… Acuda!
O destemido detetive levantou num pulo só e correu pra fora. Dog não estava lá. Deve ter corrido alertando o perigo. Na rua, em meio ao movimento, estava Dona Matilde e o seu marido, Seu Tião. Os dois no portão em polvorosa aguardavam impacientemente a chegada de Zé que mancava às pressas até eles.
- Zé! O peru! Roubaram o peru… Pelo amor de Nossa Senhora Protetora do Ano-Novo!
- Calma Dona Matilde. Vou estar resolvendo. Calma.
- Calma nada, seu moço. É tudo que nóis tinha e a gente já tava indo pra casa da nossa comadre Izildinha.
- Tá bom, seu Tião. Vou estar averiguando e recuperando seu pernil.
- Peru.
- Isso. O peru.
Zé odiava a idéia de falar pra um homem “recuperar o seu peru”, ou algo do tipo, todavia, como não estava fazendo nada, foi em busca do peru perdido.
- Que tamanho tinha o cabra?
- A gente não viu nada Zé… Era mais ligêro que a peste!
O detetive prodígio andava de um lado pro outro na rua buscando indícios enquanto Dona Matilde lhe enchia a paciência a cada dez segundos. Zé não conseguia se concentrar e quase perdendo a paciência disse aos dois:
- Vou estar entrando pra conseguir estar atinando meu raciocínio.
- Mas…
- Mas nada! É isso ou nada.
- Oxente. Tá bom então.
Zé entrou pelo portão olhando pro chão sem prestar atenção em nada. Quem poderia ter sido extremamente rápido ao ponto de furtar um pernil… ou peru… ou seja lá o que for, e depois não ser visto… Nem um vulto sequer. Alguém muito rápido era a nova missão de Zé, que deveria ser resolvida da forma mais rápida possível. Enquanto andava pelo caminho de terra que levava até a varanda do QG, Zé escorregou num osso que não era da buchada. Parecia osso de frango, e frango dos grandes. Já mais atento, ele caminhou mais um pouco e encontrou mais alguns ossos poucos metros à frente e finalmente atinou suas idéias… Uma mais um nem sempre são dois, e até um dos melhores defensores da sociedade pode cometer alguns pequenos delitos vez em quando.
- Dog! Dog seu cachorro da muléstia! Ou ocê aparece ou vou estar te dando uma surra que nunca tomou até hoje!
E surge o cão numa mistura de felicidade, barriga cheia e medo da tal surra. Dog ainda trazia uma coxa do peru entre os dentes, essa que custou muito a devolvê-la pra Zé. Zé pensou em devolver tudo que restara, mas tava parecendo muito bom. Zé comeu. A coxa que estava na boca de Dog (Zé escovava os dentes do cão diariamente), e o restante dentro do quarto do cão criminoso (sim, Dog tem um quarto só dele no QG desde a última reivindicação feita a Zé). Depois disso, Zé foi até Dona Maria e Seu Tião e os convenceu de que não adiantava mais correr atrás do criminoso, que a uma hora dessas já havia devorado tudo, mas como Zé era uma ótima pessoa, convidou os dois para uma ceia diferente regada a muita buchada de bode e pimenta dentro QG. Entrar no QG de Zé Gerúndio e Dog era uma dádiva dada a pouquíssimos, ou melhor, pouquíssimas… Os dois sentiram-se honrados e aceitaram de bom grado.




Reparem bem, minha gente, como estamos em constante perigo perto desses animais. Eles são organizados e pacientes. Estão prontos para a guerra há séculos. Teremos tempos terríveis nos próximos anos. Inclusive, eu soube de uma gangue que reúne cães, urubus e ornitorrincos. São terrivelmente perigosos, e liderados por um poodle rosa conhecido como Lulu.





