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Zé Gerúndio Não Pega Fila!

Sunday, September 27th, 2009

Zé  Gerúndio come seu pão na chapa em pé, com a barriga encostada no balcão do bar do Seu Justino.

Quem o conhece sabe que aquele olhar estrábico, perdido no horizonte, significa preocupação.

Dog, vira-lata e fiel escudeiro, que o conhece melhor do que ninguém, sabe que seu dono está angustiado. Disse para Juliana Maça, a repórter da TV que caiu de amores por ele, que “estaria investigando a fuga da Clínica”, e que “estaria entrando no MITs”, para onde sua infalível intuição apontava.

Mas nenhuma das pesquisas e investigações que fez o ajudou a encontrar uma maneira de entrar lá.

- Seu Justino, o senhor pode estar trazendo mais um café?

Seu Justino é fã do nosso herói. Tem um pôster dele, autografado, pregado na porta do banheiro masculino. “- Prá disser que é prá macho!”, justificou na época.

- Tome aqui, meu amigo Zé, e não fique aperreado, que isso me corta o coração…, as coisas vêm até a gente, num sabe?

Zé  toma de um só gole o café quente, forte e sem açúcar, sem fazer careta.

Seus ouvidos aguçados chamam levam seus olhos para uma notícia na televisão. Um chega depois do outro.

A repórter bonitinha do jornal da manhã informa que o MITs Brasil, reconhecida instituição de pesquisa e desenvolvimento, está contratando pessoas comuns para trabalharem como “Assistente de Desenvolvimento de Soluções”. Não é necessária experiência anterior e basta o candidato saber “expor a visão e a expectativa do usuário”, “participar de testes e simulações de uso das novas tecnologias” e “ajudar na divulgação e demonstração de uso destas novas tecnologias”. Basta mandar Curriculum Vitae.

“Expor…, participar…, ajudar…, isso aí eu sei fazer! Vou estar entrando no MITs, finalmente.”

Dog vê  a expressão do seu dono mudar, daquele detetive cabisbaixo de uns tempos atrás, procurando algo à altura do seu talento, para a do detetive implacável, disposto a derrotar os criminosos e a cuidar dos caprichos das donzelas indefesas, uma coisa de cada vez.

Como faz sempre que a ação começa, Dog coloca o rabo entre as pernas e volta correndo para embaixo da cama de Zé, no QG.

- Veja Seu Firmino, como Dog é inteligente. É só eu estar começando a agir para ele estar indo cuidar da choupana.

- Puxou o dono, Zé!

Zé  Gerúndio sabe que para ter chances no processo de seleção, não basta sua inteligência aguçada. Será preciso dar um tapa na aparência, trocar sua bermuda e sua camiseta por um terno, e, o que para ele será o horror dos horrores, trocar suas inseparáveis havaianas por sapatos sociais.

Mas isso que deterá nosso detetive. Prometeu para a doce Juliana Maçã que entraria no MITs, e lá ele entrará.

- Seu Firmino, deixa eu estar usando o telefone?

- Pega lá Zé!

Zé Gerúndio tem de cabeça o telefone de cada um das centenas de colaboradores que tem.

- Ô  Darcelei, aqui é o Zé!

- Grande Zé Gerúndio! O que posso fazer por você, meu camarada?

- Darcelei, estou precisando de um terno para hoje. Mas ter que ser coisa fina. E completo: cueca, camiseta, camisa, gravata, meias, calça e paletó. Tu sabe meu número.

- Claro que sei Zé. Sapatos também?

- Quarenta e quatro bico largo, como sempre, Darcelei!

- É  pra já Zé. Tenho um conjunto novinho aqui, esperando para usar. Mando para onde?

- Aqui pro Bar do Seu Justino. Só que tem que estar sendo prá agora!

- Só  desligar e coloco o motoboy no caminho Zé. Mas ele precisa pegar de volta às 13:30h. O enterro será às 15:00h. Certo?

- Nos conforme, Darcelei!

- Grande Zé!

Seria preciso fazer a barba e cortar o cabelo também, mas Zé prefere a cara de “barba por fazer”, que acrescenta um toque rebelde à sua aparência máscula e viril. Quanto ao cabelo, um pouco de goma e o pente que ele leva no bolso da bermuda já resolvem.

Zé Gerúndio não vai mandar Curriculum Vitae para o MITs. “Isso é coisa de quem tem deploma!”, é o que ele pensa.

E, de qualquer forma, sabe que receberão centenas ou milhares de curriculuns, e que o seu pode ficar no limbo.

Sua estratégia de atuação sempre foi a ousadia. Colocar a cara para bater, pois “homem que é homem vai prá cima, sem medo do perigo”, é o seu lema.

Ele vai aparecer no MITs e conseguir sua entrevista, passando na frente dos milhares de candidatos.

Dez horas da manhã e o destemido defensor dos fracos e oprimidos, e das donzelas em geral, chega ao MITs e é recebido na recepção. Sua figura se destaca pelo andar coxo, prejudicado pelos sapatos um pouco apertados que Darcelei mandou. “O terno caiu bem, mas não é sempre que o defunto tem o pé igual do meu…”, constata.

- Bom dia, o Senhor tem hora marcada?

Agora, tudo depende da arte do convencimento e da simulação.

- A senhorita está muito bonita hoje!

- Muito obrigada!

- Têm muitas mulheres comprando lentes de contato para terem olhos bonitos como os seus.

- Obrigada. O Senhor é muito gentil. Mas…, o Senhor tem hora marcada?

- Sim Senhorita, com a… a….

Zé Gerúndio remexe os bolsos do paletó.

- Que coisa, anotei na minha agenda, mas ela ficou no outro paletó.

- Não tem problema, o Senhor sabe a que horas seria?

- Dez e quarenta e cinco!

- Pois não, vamos ver, com a Senhorita Daniela?

- Essa mesmo!

- Estranho, ela deixou esse horário vago, mas isso acontece.

- Claro! Vocês sempre estão muito ocupadas.

- O Senhor pode olhar para a câmera, para eu fazer o cadastro?

Zé Gerúndio foca seu olhar estrábico e sorri para a fotografia. A recepcionista nota a beleza ímpar do candidato.

- Coloque este crachá. Quarto andar, sala 41.

- Obrigado.

Zé passa pela catraca, cumprimenta o segurança e entra no elevador.

- Quarto andar, por favor.

A recepcionista, moradora da região onde Zé atua, o reconhece.

- Com licença moço, mas…, o Senhor não é aquele detetive?

- Qual detetive exatamente, senhorita?

Zé não gosta de ser confundido com aquele detetive inglês, metido e almofadinha.

- O que prendeu o tarado dos ônibus.

- Em carne, osso e pescoço, senhorita.

Chegam ao quarto andar. Zé autografa um papel para a ascensorista.

A recrutadora está na sala, com a porta aberta, onde Zé bate delicadamente para chamar a atenção. Ela levanta os olhos sobre os óculos redondos e olha para ele.

- O Senhor é?

- José Gerúndio, às suas ordens!

- Meu nome é Daniela! Por favor, sente-se…, não me lembro do seu nome na relação das entrevistas…, o Senhor tem horário marcado?

Zé sabe que a mesma estratégia não funciona duas vezes. Chega a hora de mostrar suas qualidades e influenciar favoravelmente a moça.

- Senhorita, vi o anúncio do MITs hoje pela manhã, quando estava tomando meu café. Conclui que uma pessoa diferenciada como eu poderia estar passando despercebida no processo de seleção.

- Então o Senhor fez o quê?

- Vim para cá, e aqui estou!

- O Senhor furou a fila de candidatos?

- Não exatamente. Apenas estou tomando a iniciativa de não estar me comportando como todos os outros, quero dizer, estar mandando um CV e ficar esperando a resposta. Procurei a oportunidade de estar aqui para a entrevista e aqui estou.

A entrevistadora, que estava com cara de poucos amigos, abre um sorriso e diz.

- Pessoas cheias de iniciativa como o Senhor é o que precisamos aqui no MITs. Sabe que será o primeiro a ser entrevistado?

Mais uma vez a percepção aguçada de Zé Gerúndio o coloca em posição favorável dentro de uma questão.

- A Senhorita pode estar perguntando o que quiser!

- O quê o senhor sabe fazer?

- A Senhorita veja, eu sou um autômato…, quer dizer, autônomo. Presto serviços para as pessoas que precisam resolver alguma questão. Elas me explicam tudo direitinho e eu resolvo as coisas para elas.

- E como o Senhor resolve as questões?

- Cada questão estou resolvendo de um jeito. A Senhorita sabe que cada problema tem os seus detalhes, então, procuro estar aplicando a solução mais prática e mais objetiva.

- O senhor trabalha como Consultor, ouvindo solicitações e encontrando soluções, muito bom. Quanto cobra pelo seu trabalho?

- Geralmente as pessoas me dão alguma coisa. Quando é uma pessoa que, sabe como é, está desprovida momentaneamente de recursos, eu nem vou estar cobrando pelos serviços.

- O senhor também faz filantropia, muito interessante.

A recrutadora percebe estar com alguém especial, ousado, bem vestido, com um jeito ímpar de ser.  Experiente, ela não quer selecionar mais um dos pingüins vestidos de preto que vêm em bando dizendo as mesmas coisas, apregoando diplomas, títulos, certificações e tudo o mais. Ela quer alguém diferente, realmente diferente.

- Senhor José Gerúndio, vejo que tem estilo, iniciativa, além de um jeito peculiar de falar. Diga-me, por qual motivo eu o contrataria para a vaga aqui no MITs?

Zé Gerúndio sente que está quase conseguindo seu objetivo. A recrutadora passou para ele a responsabilidade de justificar sua contratação. Muito esperta, a moça. Quem sabe, um dia desses, ela estará deitada em seu colchão de molas, ao som de Lindomar Castilho, com Dog vigiando a porta do QG.

- A Senhoria está me colocando uma questão difícil. Não vou estar mostrando falsa modéstia, nem estar me valorizando. Sabemos que não sou especialista no que o MITs faz, mas, citando o grande Bernard Shaw: “O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.”.

Ele leu essa frase em um velho almanaque de farmácia.

- Muito boa citação, Senhor José Gerúndio, continue, por favor.

- Sou um homem do povo, sei do que o povo precisa, e do que o povo gosta. Aqui no MITs posso estar colaborando para estar melhorando a vida das pessoas.

Zé Gerúndio conseguiu disfarçar sua verdadeira intenção, que é chegar até a responsável pela incidência cada vez maior de problemas mentais entre os profissionais de TI.

A recrutadora, por sua vez, sabe que Zé Gerúndio tem algumas das qualidades especificadas na requisição de pessoal que recebeu. Não tem idéia do que farão com as pessoas comuns que serão contratadas, mas, não se importa com isso. “A Grande Padronizadora”, como a chefe é conhecida, costuma acertar sempre.

- Senhor José Gerúndio, vou providenciar sua contratação. Seja bem vindo MITs.

- A Senhorita está fazendo a coisa certa!

Despedem-se e Zé deixa a sala. Esperando o elevador, um pensamento o incomoda:

“Será que o Darcelei vai conseguir estar me mandando um terno diferente todo dia?”

E seguem links para capítulos dos outros autores:

Índice dos capítulos já publicados
Parte II – Entrar no MITs
Capítulo 5 – Reflexões da Grande Padronizadora e do Sopa Letrista
Capítulo 6 – Zé Gerúndio não pega fila
Capítulo 7 – Louco na medida certa
Capítulo 8 – Encoxando a Recrutadora

Parte I – A Descoberta

Capítulo 1 – A Grande Padronizadora
Capítulo 2 – Zé Gerúndio em “Os MITs da vida”
Capítulo 3 – Após a Fuga
Capítulo 4 – Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso

Zé Gerúndio em “Os MITs da vida” (cap.2)

Sunday, August 16th, 2009

Quem lembra da série onde Zé Gerúndio, o detetive-herói que sempre vai estar ajudando você, conseguiu após imenso custo, capturar o Encoxador Misterioso?

Pois é! Essa série teve uma segunda temporada com nova trama, novos personagens e um novo autor (leia aqui). E agora estamos com a terceira temporada escrita dessa vez a oito mãos e quatro cabeças. O que será que vai acontecer? Por onde andará Zé Gerúndio e seu fiel escudeiro Dog nesses capítulos que estarão por vir?

Leiam as duas primeiras temporadas aqui:

>>> A Caça ao Encoxador Misterioso (Documento Tupiniquim e Dicas Sobre Nada)
>>> Encoxando na Clínica (Dicas Sobre Nada)

E acompanhem os primeiros quatro capítulos da terceira temporada, boa leitura e principalmente, ótimo divertimento:

>>> Capítulo 1 – A Grande Padronizadora – por Adnor Junior no blog Dicas Sobre Nada
>>> Capítulo 2 por esse que vos escreve aqui no dT (leia abaixo)
>>> Capítulo 3 – Após a Fuga – Por Enio Vedovello no blog Dicas Sobre Nada
>>> Capítulo 4 – Papagaio de Pirata – Por Toninho Moura no blog Dicas Sobre Nada

——-

- É isso mesmo Dog. Preciso estar investigando.

- Arf!

- Não. Tenho certeza que aquele desavergonhado tava envolvido nessa fuga. Não posso estar deixando isso passar. Entende?

- Arf…

Concordou Dog, que mesmo sabendo do perigo de Zé Gerúndio ir atrás desse assunto, tinha certeza
de que nada poderia fazer para detê-lo.

Zé Gerúndio passou a mão no telefone e ligou pra Juliana Maçã para conversar. Ele precisa de mais detalhes além da reportagem que lera no jornal, porém sabia bem qual o preço que a astuta repórter lhe cobraria, e desses valores Zé tinha de sobra em sua conta, e é claro que pagaria uma de duas pequenas prediletas com prazer.

Hora marcada, local também. Zé saiu, de banho tomado vestindo uma de suas camisetas mais novas que acabara de ganhar no auto-posto Piraporinha, uma bermuda que só usa pra ocasiões especiais e claro, seu chinelo de dedo da sorte. Por sinal, era exatamente o mesmo que usou no dia em que capturou o Encoxador Misterioso.

Se despediu de Dog e foi em direção à casa de Juliana Maçã. Duas horas e três ônibus depois, Zé estava lá, no apartamento da repórter que estava muito bem arrumada. Chamava atenção não só pelos conhecidos furos de reportagem, mas também pela aparência jovial e sorriso cativante. Juliana sabia bem disso e sempre usou desses artifícios para conseguir se aprofundar nos assuntos em que estava envolvida.

Ela abriu a porta e lá estava aquele homem inesquecível. Juliana parecia ter perdido um pouco de suas forças nas pernas ao olhar pra Zé, ali parado com seu sexy olhar estrábico. Ela corou e ele a abraçou com firmeza e carinho ao mesmo tempo. A repórter estava enfim entregue aos encantos do herói.
Duas horas depois, Zé estava sentado no sofá da sala de Juliana Maçã só vestindo bermuda e chinelo com ela ao lado abraçada a ele, vestindo a camiseta do Auto-posto Piraporinha e roupas de baixo, cabeça encostada carinhosamente no peito magro porém cheio de energia de Zé Gerúndio. Começaram a conversar sobre a notícia e quem havia escapado da clínica psiquiátrica. Agora era certo. O Encoxador Misterioso estava solto novamente.

- Nossa! Deu um trabalhão estar pegando esse sem vergonha…

- Zé balançou a cabeça negativamente e cabisbaixo continuou.

- Mas menina. Pra onde será que esse cabra foi?

- Não sei, Zé. Não sei… Mas ele não está sozinho… e tem outra! Todos os fugitivos eram ex-profissionais conceituados da área de TI, sabe?

- Sei sim. É aqueles doido que mexe em computador, né?

- Isso.

- O que será que tem a ver… Tenho que estar investigando isso.

- Olha isso aqui, Zé. É uma entrevista que fiz com o Dr. Gláucio Valério. Leia…

E Zé Gerúndio leu, piscou o olho com força com se fosse focar melhor, e começou novamente. Juliana apoiada em seu peito suspirava intrigada com as informações que coletara.

De repente como se tivesse acabado de conceber a mais genial das idéias, Zé se levanta e vai em direção à porta.

- Mas Zé… espera um pouco. O que foi?

- Tenho que estar entrando num desses MITs que o doutor aí citou. Tenho que saber mais… Tenho que estar sabendo quais informações eles podem estar fornecendo.

- Mas como você vai fazer isso?

- Ainda não sei… Como estar entrando no MIT?

- Não sei… Mas sem camiseta você não pode começar. Pega a sua de volta.

E Juliana tira a camiseta do Zé que estava vestindo e lhe entrega. Como além da roupa de baixo, a camiseta era a única coisa que ela vestia, Zé olhou e resolveu esperar mais umas duas horas na casa da repórter antes da sua nova empreitada.

Zé Gerúndio e Dog Voltando à Ativa!

Sunday, July 5th, 2009

Zé Gerúndio há muito tempo já estava quieto. Nada de atender aos chamados de perigo. Nada de ler jornais procurando algo a investigar, agir e desvendar. Zé era outro homem. Difícil achar a vida  excitante depois de seu derradeiro confronto onde ele foi exigido por completo. Corpo e mente trabalhando em sua totalidade pra finalmente se sair vitorioso… mais uma vez.

Zé nunca perdera um caso, mas agora não aceitava mais qualquer caso. Nada lhe parecia atraente no mundo calmo, e Zé Gerúndio, o detetive herói, dava o braço a torcer admitindo que o crime lhe fazia sentir vivo.

Mais um dia em seu QG e mais um dia sem nada a fazer. Muito tempo assim, e se continuasse, Zé teria até que começar a procurar um emprego. Isso seria o fim dele. O fim de uma história gloriosa. Entrar numa rotina qualquer seria como morrer para Zé Gerúndio. Dog já se preocupava e tentava animá-lo de alguma forma. Seu cão fiel e mais esperto que carcará, segundo o próprio Zé Gerúndio, apontava os perigos como de habitual, mas Zé olhava e suspirava.

- Ah Dog… Pede pra eles estarem chamando a polícia. Eles com certeza estarão resolvendo isso.

E Dog saía cabisbaixo sem saber o que fazer. Dava dó de ver esse grande homem andando e manquitolando de um lado a outro sem vontade de viver. Porém, dava mais dó ainda de ver Dog, seu fiel escudeiro, desesperado e sedento por ação. Desesperado por pressentir o perigo e avisar a Zé como sempre: correndo e se escondendo do confronto. Contudo, Dog não era de desistir fácil…

Certa vez, Dog caminhava pelas ruas do QG atento a tudo, inclusive uma linguiça pendurada no açougue da esquina. Enquanto salivava ouviu um comentário ao lado:

- Oxente menina! Você viu no jornal de hoje?

- Vi não…

- Aquele doido dos ônibus que encoxava as mulherada fugiu e…

Dog esqueceu a lingüiça. Era isso! Zé precisava saber… e logo. Dog se dirigiu até a banca de jornais ao lado e viu a foto da repórter responsável pela notícia. Era Júlia Maçã. Dessa ele lembrava bem, pois além de estar envolvida no caso do Encoxador Misterioso, o mais difícil de toda a carreira da dupla, ela foi mais uma das tantas que caiu diante dos encantos estrábicos de Zé Gerúndio.

Dog não pestanejou e afanou um jornal. Saiu correndo com ele na boca seguido de perto pelo dono da banca, Seu Severino. Entrou no QG e foi correndo em direção a Zé que estava sentado a frente da porta. Dog largou o jornal aos pés dele e em disparada foi se esconder. Zé percebeu e pressentiu algo diferente naquela manobra de Dog, mas foi atrapalhado pela chegada do Seu Severino:

- Aquele seu cachorro filo duma rapariga roubou um jornal na minha banca! Devolve!

Zé baixou e pegou o jornal. Deu nas mãos do Seu Severino e quando voltava à sua cadeira viu Dog abalado e inquieto.

- Seu Severino! Vou estar comprando esse jornal…

- Então tá! É cinco real.

- Tudo isso nesse jornalzinho?

- É. Ele custa só dois, mas teve entrega a domicílio e…

- Tá bom… Tá bom…

Zé pagou e pegou o jornal. Nele viu entre as babas de Dog a foto de Júlia Maçã. Zé nunca esquecia uma de suas pequenas. Viu que ela era responsável pela manchete principal que dizia “Criminosos famosos fogem de manicômio”. Seu coração palpitou descompassado e pegou o telefone pra ligar pra Júlia…

Veja mais da série aqui. Ou então no blog Dicas Sobre Nada.

Mãe Joana e a Assistente Número Dois

Monday, April 27th, 2009

Dia corrido na tenda de Mãe Joana, a mãe de santo mais onisciente que o FBI em filmes de espionagem. Jozicléia, sua assistente número um, corre de um lado pro outro de forma desnorteada. É um dia especial na tenda… Mãe Joana finalmente e pra alegria de Jozicléia contratará sua assistente número dois. As outras que passaram pela tenda eram todas frilanci, como diria a própria mãe, e trabalhavam quando a demanda por demandas era grande demais, se é que me faço entender.

Mãe Joana nunca gostou das freelancers. Pra ela, boa mesmo era Jozicléia, que era comprometida com os trabalhos. Ela queria mesmo era outra Jozicléia…

- Jozicréia! Traiz um copo menina! Não si demora não!

- Tá aqui, mãezinha… Tá aqui.

- Ê Ê! Que diacho é isso dentro do copo?

- Suco de caju pra senhora se refrescar. Tá uma delícia!

- Oxi! E agora eu vô dá suco de caju pro santo?

- Ai… Era pro santo?

- Ô menina burra! Pega um copo com pinga. Daquela que eu trusse do Ceará.

- Sim senhora.

- Mas pode dexá o suco… Vai que o santo qué uma batida de caju. Aproveita e traiz uns gelinho e já manda entrá a primêra pra eu podê entrevistá…

- Sim senhora.

E Jozicléia, por ordem de chegada, ia mandando as candidatas entrarem.

- Ê Ê!

- “Ê” o que?

- Heim?

- A senhora disse “Ê Ê”… o que é isso?

- Oxi mizinfia… Se suncê num sabe, também não vô ficá aqui ixpricando… Jozicréia! Manda a próxima.

- Saravá mizinfia!

- Saravá Mãe Joana!

“Essa começô bem…” – pensou.

- Qual é o seu nome, mizinfia?

- Andréia.

- Tá bão… Brigada e pode i embora…

- Mas…

- Jozicréia! A próxima!!!

- Senta aí, mizinfia…

- Aqui?

- Não! Aqui no meu colo! Oxi…

- A tá. Melhor assim?

- Oxi! Sai do meu colo! Sai do meu colo! Diacho…

- Mas a senhora…

- Jozicréia!!! Manda a próxima e avisa que se alguma encostá ni mim vou fazê trabaio pra elas.

- Qual é o seu nome, criatura?

- Márcia… Tudo bem com a senhora?

- Tava. Pode saí.

- Mas por quê?

- Jozicréia!!! A próxima! E quem não começá o nome com jota, manda imbora… Só com jota de Mãe Joana…

- E suncê, cara de fuinha? Qual é o seu nome?

- Juliana.

- Ê Ê! Bom demais! E diz pra Mãe Joana, qual o patuá que suncê escolheu com a Jozicréia?

- Ah! Patuá né? Bom… Nenhum. To guardando dinheiro e…

- Jozicréia!!! A próxima! E se não comprar patuá já avisa que é mió nem entrá.

- Fala, coisa isquisita… Seu nome.

- Janiscleide.

- Ê Ê. E patuá? Dexa eu vê.

- Esse aqui, ó.

- Eita! O do Cabocro Zezé? Esse é dos bão. É forte!

- É… Adoro o Caboclo Zezé.

- Coisa boa mizinfia! Tá contratada.

- Eba! Vou adorar… Sou sua fã.

- Ê Ê. Suncê já fala com a Jozicréia pra ela te ensiná tudo…

- Ô Jozicréia!!! Vem aqui drento…

- Pode falar, mãezinha.

- A Janiscreide vai trabaiá nos trabaio com nóis agora! Dá o balde e os pano pra ela limpá tudo e insina as coisa pra ela.

- Sim senhora, mãezinha… Mas têm as outras ainda.

- Pode mandá as outra pra casa… e manda logo pruque tenho consulta daqui a poco. Vem a dona Laurinha. Ela tá muito deprimida. Prepara os patuá pra ela… Só os de cinquenta real pra cima.

- Sim senhora…

Mãe Joana Analisando a Concorrência

Friday, April 24th, 2009

Em tempos de crise, vale muito ser antenado. O negócio mesmo é fazer sua parte e ficar esperto pra o que os outros estão fazendo. A concorrência não perdoa. A concorrência atropela.

Mãe Joana é visionária. Ela não dá ponto sem nó jamais. Ela observa tudo, e convenhamos que com poderes iguais aos dela, isso é relativamente fácil. Basta uma pequena concentração e…

- Ê Ê! Jozicréia… Vai andá nas rua e olhá os poste.

- Heim?

- Ê Ê! Mizinfia tá moca? Eu mandei suncê andá e olhá os poste!

- Eu entendi, mãezinha… Mas pra que?

- Oxi mizinfia. Suncê tá lerda por demais hoje. Vai vê a concorrência.

- Ahhh. Entendi… Pensei que a senhora tava vendo isso na sua concentração de hoje.

- Se eu querê eu vejo… Mas se for assim suncê não tem o que fazê. Anda menina!

- To indo mãezinha… to indo.

Voltando ofegante e suada…

- Voltei mãezinha.

- Oxi… Pruquê demoro tanto?

- Mas…

- Anda! Mostra…

- Me deixa tomar um copo d’água antes?

- Que mané água que nada… Bora! Depois suncê bebe água.

- UNF!

- Mizinfia tá malcriada hoje! Vô cortá sua comissão nos patuá do Cabocro Zezé!

- Isso não mãezinha. Vamos lá… Na realidade só achei um.

- Ê Ê! Andô todo esse tempo e só achou um??? Suncê já foi meió, mizinfia…

- Acho que seus concorrentes não estão fazendo anúncio mesmo. E se a senhora quer saber, tô precisando de umas férias, sabe? Volto mais motivada e…

- Oxi… Férias?

- Ai. Deixa pra lá. A senhora quer ouvir o que eu consegui pegar?

- E fazê o que? Se só tem um, borá vê…

- É esse aqui ó… Tirei até foto.

- Ê Ê! Pai Guerrero do Xuxalá. O Rei da amarração!

- É mãezinha… forte né?

- Oxi se é… Deixa eu vê aqui a foto que suncê tiro.

- Olha mãezinha… Isso a gente nunca usou. Ele coloca a cara dele no anúncio.

- Ê Ê! Eu priciso conversá com ele… Rápido!

- Por que, mãezinha? Vai fazer um duelo de mandinga?

- Oxi mizinfia! Que negócio é esse de duelo de mandinga!? Eu vô é marcá um encontro pruquê o diacho do Pai Guerrero é danado de formoso! E outra coisa é que se ele é o rei da amarração, eu sô a rainha… e isso da samba mizinfia!

- É… deve dar mesmo.

- Muito bom trabaio, mizinfia! Dá inté pra pensá naquelas férias… Se o Pai Guerrero quisé alguma coisa comigo, eu fecho a tenda uns três dia.

- Três???

- Ê Ê. Muito né? Só um dia procê. E assim fica aqui marcando as consulta.

Andross Editora Recebe Microcontos para Nova Antologia

Monday, April 13th, 2009

Seguinte, digníssimo pessoal que acessa ao dT. Vou abrir espaço nesse blog pra Andross divulgar sua antologia de microcontos, um estilo literário ainda pouco difundido e precisando de toda a força possível pra crescer.

Lembrando que já participei de uma das antologias da Andross, chamada Retratos Urbanos, e como vivência com essa editora, tenho que recomendá-la e divulgá-la por livre e espontânea vontade. Sou um escritor iniciante, e trabalhos como esses são bastante importantes a qualquer um que deseja ingressar no cenário literário tupiniquim. Parabéns à Andross e ao editor Edson Rossatto. (quem sabe eu mesmo não crio meu primeiro microconto pra ingressar nessa antologia… vou tentar ;-) ).

Vamos à divulgação da antologia Histórias Liliputianas!


ANDROSS EDITORA RECEBE MICROCONTOS PARA NOVA ANTOLOGIA

A Andross Editora está recebendo, até dia 31 de maio, microcontos de novos autores para a antologia Histórias Liliputianas – Antologia de Microcontos.
Microcontos são histórias de sentido completo com, no máximo, 600 caracteres incluindo os espaços, mas não o título. Veja dois exemplos:

DEVER CUMPRIDO! (Edson Rossatto)
Tomou o ônibus e sentou-se à janela. Ficou a observar as pessoas nas ruas daquela cidade americana. Chegou em casa, brincou com os filhos, jantou e foi ver tevê.
- Como foi seu dia?
Sorriu.
- Nenhuma novidade!
Voltou a assistir ao programa, sem nenhuma lembrança do cheiro de queimado insuportável da eletrocussão realizada por ele nos porões daquele presídio.

COMPROMISSO (Edson Rossatto)
Quadris em vai-e-vem, urros, suor, lençóis amarrotados. Aquela havia sido a melhor transa de ambos. Só não continuaram porque ele precisava rezar a missa das oito.

Autores com obras já publicadas também podem participar. O regulamento e as instruções para envio dos textos estão disponíveis no website da editora: www.andross.com.br. O lançamento de Histórias Liliputianas – Antologia de Microcontos está previsto para setembro.

SOBRE A ANDROSS:
Com cinco anos de mercado e 34 títulos publicados, a Andross Editora nasceu no campus da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, para abrir espaço aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. Iniciou as atividades com obras acadêmicas, cresceu e se manteve graças a um modelo de negócio diferenciado: a publicação de antologias.
Por este sistema, a editora já publicou mais de 790 autores, de 13 a 68 anos, do ensino médio ao doutorado, amadores e profissionais. Alguns dos que estrearam nas antologias da Andross hoje têm obras publicadas individualmente por outras editoras.

O Estagiário Robson em “Plantão de Ano-Novo”

Friday, January 2nd, 2009

- Mas hoje é dia 1º! Bem que a gente podia ser liberado mais cedo, né? Que porcaria fazer plantão no feriado! Azar…

- Estagiário não dá azar, Robson. Estagiário vive e respira azar. Quer folgar num feriado? Seja efetivado e promovido, se não…

- Tsc. Mas será que a chefia libera a gente mais cedo? Pô! Não tem nada pra fazer…

- Fala com o “homi”, ué.

- Boa! Vou falar.

- Salve chefia!

- O que você quer Robson?

- Só dar um feliz Ano-Novo pro senhor, ué!

- Sei. Sei. Pra você também. E o que mais você quer?

- Ah chefe. Nada não… Só conversar um pouco, tá ligado? Aliás, o senhor tem lido os jornais? O Ronaldo já emagreceu 5 quilos! Logo mais tá fininho pra levar o Timão pras cabeças.

- É. Eu vi… Pelo que te conheço, você já deve ter até a camisa dele.

- A branca, a preta e até a roxa. Comprei na frente do Parque São Jorge num dia que tentei ver ele treinar, mas o danado ficou só na academia e não consegui.

- Hummm.

- Mas eu vou lá chefe. Cedo ou tarde volto com um autógrafo. O senhor sabe que eu consigo, né?

- E como sei. Você dobra todo mundo, né moleque? Até a segurança. Só que eu você não dobra. O que mais você quer?

- Desejar um bom Ano-Novo eu já desejei?

- Já.

- Falar do Curintia eu também falei, né?

- Já, Robson…

- Ah! Lembrei.

- Manda então.

- Sabe o que é chefe? Eu e o Marcelo ficamos aqui no plantão, só que não tem nada pra fazer… Será que o senhor não libera a gente depois do almoço? Aí eu posso tentar o autógrafo do Fenômeno.

- Entendi. Você e o Marcelo estão sem serviço, é isso?

- É patrão.

- Então tudo bem.

- Sério? Podemos ir?

- Claro que não. Dou serviço pra vocês. Pode deixar comigo.

- P*rra Robson! Olha a pilha de coisas que eu tenho que entregar agora!

- Calma Marcelão. Pelo menos eu tentei. E ainda tem o sábado pra tentar pegar o autógrafo do Fenômeno.

- Puts! Você e o Fenômeno que se f*dam! E me deixa trabalhar agora…