Posts Tagged ‘conversa’

Ano-Novo, Vida Nova no Bar do Seu Milton

Monday, January 12th, 2009

- Faaala Seu Milton!!! Como é que tá essa força toda?

- Tudo certo Derba. E contigo? Por onde andou nesse final de ano?

- Tava na casa da sogra no litoral…

Aderbal é cliente assíduo do Bar do Seu Milton. Difícil estar lá e não encontrá-lo. Seu Milton até sentia falta da presença do “Derba”, afinal, quantas foram as vezes em que não ouvira os lamentos da vida de casado, especialmente quando a sogra estava envolvida. De vez em quando ele até ficava devendo alguma coisa, mas cedo ou tarde acertava suas contas. Enrolado o Derba.

Seu Milton sabia bem que, se o Derba passou as festas de fim de ano na casa da sogra, isso representava pelo menos um mês de lamentações e maldições lançadas para “a sogra”. Ele nunca dizia o nome dela. Na verdade, não se sabe se o Derba tem tal conhecimento.

- Fim de ano com a sogrona, heim Derba! Tá amolecendo rapaz?

- Nada! É uma técnica pra tornar a vida mais otimista.

- Como assim?

- Eu explico sem problemas…

- Menino. Busca um chope pro Derba que essa eu quero ouvir.

Enquanto o “Menino” foi buscar o chope do Derba, Seu Milton tirou o paninho do ombro e começou a secar copos secos atrás do balcão demonstrando ansiedade pra escutar a tal teoria.

- Desembucha rapaz!

- Então Seu Milton. O senhor sabe bem que minha sogra é a enviada do capeta na terra, não sabe?

- Saber eu não sei… Mas pelo que você diz, deve de ser mesmo.

- Pois é. Ela ficou atentando minha mulher dezembro inteiro pra passarmos o fim de ano na casa dela em São Vicente. Casa boa, Seu Milton. Muito mais do que aquela megera merece…

- Hummm.

- Desce outro chopinho por favor, Seu Milton!

- Menino! Mais um pra cá…

- Continuando… Eu gosto da casa, mas só se ela não estivesse dentro dela. Não queria ir, mas a patroa insistia muito. Era um tal de “não quero ficar sozinha” pra cá, ou “você odeia minha família” pra lá. Eu já estava a ponto de admitir que odeio realmente a família dela quando pensei… Por que não?

- É mesmo?

- É Seu Milton. O ano novo sempre vem comigo bêbado cercado de amigos. Sempre acordo no 1º de Janeiro bem e feliz pelo que foi o 31 de Dezembro. Mas e o resto do ano? Sempre cheio de sacrifícios. Sempre muito complicado.

- Pois é.

- Então. Pensei comigo: “E se eu fizer justamente o contrário? E se eu tiver uma passagem de m*rda!”

- Acho que to entendendo.

- É isso, Seu Milton. Passei a virada com a lazarenta da minha sogra pra isso. Tudo é uma questão de tática. Esse ano a coisa anda. To jogando na loteria, apostando nos cavalos, Jogo do Bicho. Tudo… Uma hora a coisa toda funciona.

- Pois é… Loteria, né?

- Isso!

- Cavalos e Jogo do Bicho, né?

- Também são opções boas!

- Legal. E essa conta de mais de 200 pilas aberta aqui no meu bar! Tá de sacanagem, né Derba!? Pois com a crise econômica detonando tudo, vamos suspender seus créditos por hora. Até você ganhar no Bicho e me pagar tudinho que deve. Pode ser?

- Pô Seu Milton! Não sacaneia também, né?

- Não… vou até dar um dica: Joga no burro! Tem muito a ver com esse novo momento que você tá passando. Menino! Suspende o chope do Derba porque ele tem que guardar a grana pra ficar rico.

- Puts. Sabe de quem é a culpa? Da desgraçada da minha sogra! Qualquer dia eu mato a filha duma…

Seu Milton, o Melhor de Todos os Barmans

Thursday, October 2nd, 2008

Seu Milton é um barman de primeira, daqueles que nasceram pra isso. Serve bem, é simpatia toda vida e ouve como ninguém mais. Sabe-se de pessoas que vão ao bar do seu Milton só pra conversar com ele. É o amigo de todas as horas.

Seu Milton não esquece um rosto por nada. Conhece cada um de seus clientes, desde o mais extrovertido e gozador, até o mais fechado e depressivo. De todos, seu Milton tem a confiança necessária para que eles se abram e despejem suas angústias, ou nos casos mais raros, suas alegrias.

Sempre com o pano no ombro atrás do balcão do bar, ele recebe seus clientes. E por incrível que pareça, parece sempre estar secando um copo. Copos úmidos nunca se acabam no bar do seu Milton.

- E aí rapaz? Tudo bem?

- Faaala seu Milton! Cumé que tá?

- Tudo certo. Desce um chope aqui pro meu amigo!

- Certo seu Milton. E aí, como vão as coisas?

- Ah! Tudo certo. E contigo?

- P*rra! Fui promovido, seu Milton!

- Tá brincando? Ô menino! Desce uma tequila pro meu amigo aqui e é por conta da casa.

- Boa! O senhor brinda comigo?

- Não Alê. Sabe que não bebo.

- É verdade, mas tome um suco então. De que adianta um brinde sem um copo pra tocar?

- É verdade. Faz um suco também, menino!

O tal menino trás os dois copos que se tocam e brindam à promoção de Alexandre, que agora é gerente de marketing de uma empresa em franco crescimento. Um matou o shot de tequila numa pancada só, e o outro bebericou seu suco limpando o “bigode de laranja” que sobrou com a parte inferior do lábio.

- Mas e aquele seu Corinthians, heim? Como vai na segundona?

- Pô seu Milton! Como é que um homem com o conhecimento do senhor, sempre atualizado sobre tudo, não sabe que meu time vai muito bem obrigado nesse campeonato?

- Ah! Eu não acompanho segunda divisão. Nem pra torcer contra o seu time.

- Sabia que o senhor iria sacanear! Pode tirar esse sorrisinho maroto da cara porque ano que vem não tem pra ninguém. Vamos entrar pra varrer todo mundo da frente.

- Hum, sei.

- E essas eleições, heim seu Milton? Vai votar em quem?

- Olha que pergunta mais indiscreta.

- Ah vai! Não vai dizer pra gente quebrar um pau hoje?

- Tá, só pra eu ouvir o que tem a dizer, eu vou anular meu voto.

- Não acredito!

- Eu é que não acredito! Não acredito em nenhuma balela que esse povo fala. Eu só acredito em bar e em gente que apóia o cotovelo no meu balcão, de resto, não dá mais.

- Ah! Mas um dia já acreditou, né?

- Sim. Um dia. Mas faz tempo, sabe? Nem me lembro mais. Foi na mesma época que meu pai lia história do saci pra mim na cama. O saci ele lia nas terças, e os políticos honestos nas quintas.

Risadas gerais em torno da conversa que já chamava a atenção de quem estava por perto. Muita gente entrou no papo. Muita gente começou a discutir sobre os candidatos e seus planos de governo. Depois o papo retornou ao futebol, passou pela queda da bolsa de valores, e foi até na existência ou não de um ser supremo e divino, se ele tem barba, ou se é brasileiro mesmo. Mas nisso todos concordaram… todos os dez que estavam na conversa naquele momento afirmaram que Deus era brasileiro e já até havia jogado na ponta esquerda do Jabaquara na década de 50, e os mais velhos até diziam que era melhor do que o Pelé. Só o seu Milton que já não participava mais da conversa. Ele já estava do outro lado do bar em outro papo, provavelmente sobre outro assunto também, sempre com o paninho no ombro ou nas mãos, secando um copo qualquer.

Carta ao Divino – Candidatos com Antecedentes Criminais (#004)

Monday, September 29th, 2008

Oi Divinão!

Fala a verdade, você tava morrendo de saudades das minhas cartas, né?

Então, apesar da demora, tenho pensado em uma coisa que realmente é complicado de não pensar aqui no Brasil em épocas como as atuais, que são as eleições. Estamos, como o senhor bem sabe, em épocas de eleições municipais. Sabe? Candidatos às prefeituras e às câmaras municipais disputando as vagas para serem os “líderes” políticos dos povos das respectivas cidades em que concorrem.

Além de tudo que sabemos (e olha que nem precisamos ser oniscientes pra tal), como os escândalos de corrupção, mentiras e hipocrisias, além de termos que aturar horários políticos obrigatórios nos meios de comunicação, e lá nos deparamos com candidatos como o Tiririca, a Lacraia e o Dinei, temos que ler notícias como a de que 22% de candidatos a vereador em São Paulo possuem antecedentes criminais.

O senhor sabe qual é o tamanho de São Paulo né? E sobre a importância dessa cidade pro Brasil? Também né? Pois então, por que temos que ver isso tudo e ainda sermos obrigados a votar em um deles? Quero dizer, se o cara já respondeu a inquéritos policiais, ou mesmo a processos judiciários, o que o maldito tá fazendo por lá? Ele deveria ser impedido (salvo alguns casos extremamente bem justificados e analisados). Vai entender…

Sei que não devo chamar uma pessoa de maldita, mas se formos somar, meu caro Divinão, esse ser humano vai aprontar durante quatro longos anos, fazendo da vida dos cidadãos verdadeiros infernos. E pensando numa imagem pessoal, as pessoas começam a não temer o inferno por aqui. Já estamos nele. E como vamos temer um banhozinho escaldante, ou torturas eternas, ou um tridentezinho na mão do coisa-ruim, se aqui temos que encarar essas feras? O inferno está cada vez mais atraente tendo como comparação a terra em que vivemos.

Eu sei o que o senhor vai responder. Que não “temos” que agüentar nada disso. Ninguém tem que agüentar nada. Pois é. Mas hoje os cérebros estão todos atrofiados. Ninguém acredita mais na coletividade. E quando levantamos um alerta como esse, somos chamados de comunistas loucos e ultrapassados. Eu nem comunista sou… p*ta m*rda!

Desculpe.

Pô Divinão! O senhor, que tudo pode, bem que poderia mandar uns raios de alerta aí de cima, né? Mas isso o senhor não faz. O senhor acredita que todos podem se redimir, né? Mas eu não. Acho que nossos líderes são sujos e merecem um castigo exemplar.

Ah! E Diviníssimo, antes que pense em mandar políticos pro inferno, eu já de antemão lhe peço pra reconsiderar! Coitado do coisa-ruim. Não é possível que ele tenha feito algo de tão ruim para ter que passar a eternidade ao lado de pessoas como nossos políticos. Seja piedoso.

Mais sobre a notícia dos candidatos com antecedentes criminais, veja na Folha Online onde você pode investigar melhor sobre o assunto.

Mãe Joana e Danicreissu

Tuesday, August 5th, 2008

- Mizinfia vai ter que fazer um banho com fôia de urtiga, e prifume Chanel número 5…

- Mas Mãe Joana! Urtiga não dá coceira?

- E mizinfia tá duvidando de Mãe Joana?

- Não, mãezinha… Longe de mim!

- Então, se mizinfia quisé teu homi de volta, faz o banho.

- O perfume não pode ser um daquele genérico do contém 1g?

- Uai… se mizinfia quisé um homi genérico…

- Deus me livre, mãe… De homem fajuto já basta nessa vida!

- Então suncê intendeu tudo?

- Entendi, mãe… Se eu fizer tudo que a senhora falou, meu amor volta com certeza, né?

- Ê Ê! Num é bem assim, mizinfia…

- Ah não? Então como é, Mãe Joana? Explica pra eu não errar… eu imploro.

- É assim: Além do banho, suncê tem de saí moiada do banho e na mesma hora tem de i atrás do seu homi com um charuto na boca. Tá anotando? Bão, aí quando tu encontrá ele, vai com o charuto soltando umas baforada na cara dele e fazendo uma dancinha assim, ó…

- Mas mãe…

- Num me interrompe! Ê Ê! Dispois de tudo isso, vai tê que seduzi o fio. Vai jogá todo seu charme nele, e assim ele vorta pra suncê.

- Mas mãe… Se eu chegar me coçando, toda molhada, com um charuto na boca, e fazendo essa dancinha, como é que vou conseguir seduzir alguém? E outra: se for pra seduzir, pra que eu preciso disso tudo?

- Tá faltando fé, mizinfia… e se faltá fé, suncê num consegue nada!

- É… Como sempre a senhora tem razão. Eu tenho fé que vou conseguir o Danicleyson de volta…

- Ê Ê! “Dani” o quê, mizinfia? Danicreissu? Mas com um nome desses suncê devia de guardá a mandinga pra otro homi, num acha?

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Carta ao Divino – # 002

Saturday, June 21st, 2008

louva_deus.JPGSenhor.

Divinão.

Todo. (ou Todo Poderoso, para os não tão íntimos).

Soube que as pessoas têm que ser tementes ao Senhor. Quer dizer, pela construção da palavra e o vocabulário dos tempos de hoje, associa-se diretamente ao verbo temer. Normal. E assim eu pensava: “Tenho que temer Deus? Por quê? Dizem que o Divino é bacana, coisa e tal…”. Sabe do que estou falando, né?

Formalidades mil foram criadas para as pessoas poderem conversar com você. Ops! Com o Senhor, e com letra maiúscula. Que coisa né? Afinal, pai que é pai deveria apenas se contentar com o amor dos filhos, e não com uma série de formalidades para provar que esse é realmente temente a Deus.

Boa! Voltemos ao “temente”. Eu fiquei implicado com essa expressão. Não sou só eu que a leio dessa forma, sabe Divinão? Grande parte da população desse planeta o teme de alguma forma. Pessoas sobem em palcos e palanques em Seu nome dizendo que é melhor seguir palavras que o Senhor nem disse, senão, o castigo será a Vossa cólera. É tão bravo assim? Não temo, mas também não gosto de gente brava. Ah é! O Senhor não é gente… Mas as criou, e gente. E criou muita gente que fala bobagem. (ou escreve… vai saber).

Enfim, descobri após uma pesquisa que o “temente” vem de temo, e não de temor. Significa algo como respeitar além da simples obediência. Respeito pelo amor, e não pela força. Assim tem sentido.

Poxa vida, Divinão! O grande problema é que a maioria das pessoas do mundo o respeita, seja qual for o nome que tem para elas, com medo de Seu castigo. Acham que cairão em desgraça se contradizerem os tais livros que dizem por aí que são Sua palavra. A palavra de Deus.

De joelhos no milho, se humilhando, rastejando com fervor, até autoflagelo tem. As pessoas acham que terão mais dádivas se fizerem dessa forma. E eu me pergunto sempre: “Por que Deus precisa disso?”. Fala sério comigo, Divinão. Precisa que eu sinta dor para provar algo? Precisa que eu fale em segunda pessoa para que entenda? “Ó Pai, tu que és tão misericordioso! Perdoa-me por ter olhado pra bunda da minha vizinha!”. Pelo amor de Deus! Opá…

E por que cargas d’água tenho que escrever tudo que se refere ao Senhor em letra maiúscula? Acho que em nenhum dos livros sagrados consta algo como: Mané, capítulo 8, versículo 91: “Escreverás a primeira letra do nome de Deus, assim como todas Vossas Santas e Misericordiosas referências, somente em letra maiúscula, fonte Times New Roman e tamanho 12. Caso contrário, terás uma das bestas do Apocalipse somente pra você.” Eu nunca ouvi falar disso, portanto, apesar de regrinhas estipuladas por pessoas, começo a partir de agora mesmo a escrever ao menos as referências que faço ao senhor como escrevo todas, preservando letras maiúsculas apenas ao seu nome próprio (Deus), alcunha dada por mim (Divinão), e por fim, ainda lhe chamarei de senhor, só que mudarei para letra minúscula, pois é bem mais velhote do que eu, e minha mãe e meu pai me ensinaram a respeitar os mais velhos. Sendo assim, tudo fica mais íntimo e aconchegante, não acha Divinão? Eu acho.

Até a próxima!


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Eu Sou Nerd!

Thursday, June 19th, 2008

 

prehistoricalnerd.jpg

- Mãe. Pai. Tenho uma coisa pra falar com vocês…

- Tá filhão. Depois da janta a gente conversa…

- Pai, tenho que falar logo. Não agüento mais isso dentro de mim… tenho que botar pra fora. Mãe… posso?

- Agora não, Doquinha. Tô fazendo a janta.

- Gente, o papo é sério! Não tô brincando.

- Tá filho. Vamos lá. Quer sair do jiu-jitsu? Cansou? Ou arrumou uma namorada e quer um dinheirinho a mais? É isso? Sei bem como é. Balada, noitada das boas, quem sabe um lugarzinho pra dormir… Heim? Heim? Entendeu né?

- Nada disso paiê. Não vou ao jiu-jitsu há uns dez meses. E outra, já tenho namorada e ela mora sozinha…

- Nossa! Ô Marli! Como não sei disso??? E você pode me explicar por que saiu do jiu-jitsu? E quantos anos tem essa menina?

- Calma pai. Tá tudo sobre o mais completo controle. Pode ficar tranqüilo…

- Controle? Controle? Quantos anos você tem? 15? Nem sabe o que é controle ainda!

- Pai, eu tenho 19, e tudo vai bem comigo, mas preciso contar uma coisa pra vocês. É sério mesmo.

- Nossa… e eu que falava pra todo mundo que meu filho era um atleta nato, que batia em todo mundo, que rosnava até…

- Pois é. Mas o papo é similar a isso. Não sei nem por onde começar…

- Fala logo Doquinha!

- Tá bom, mãe. Vou falar…

- Anda moleque! Não tenho tempo pra essas coisas de mistério…

- Tá. Então é assim. Tudo começou quando conheci aquele meu amigo, o Joça.

- Eu nunca gostei daquele menino… metido com essas coisas de computador.

- Manhê! Posso?

- Tá. Fala.

nerd-tattoos.jpg- Ele freqüentava aquelas LAN houses, sabem? Onde as pessoas jogam e navegam na web…

- O que é web, Marli?

- Sei não.

- Web é internet. Tá bom? Leiam assim. Continuando, eu comecei a ir com ele. Sempre me diverti muito por lá, sabe? Gente legal. Jogos. E fui conhecendo mais e mais gente.

- Não acredito!!! É nesses antros que você gasta o dinheiro que te dou?

- Pai, primeiro, o senhor não me dá mais dinheiro há um bom tempo, e segundo, não sei se lembra, mas estudo a noite, então, consegui há uns meses atrás um trabalho, portanto, ganho meu próprio dinheiro.

- Blah! Não sabe o que é trabalho ainda… E você vai trabalhar com seu tio no escritório de contabilidade.

- Nem morto!

- Como é moleque???

- Pára João! Pode parar…

- Unf!

- Vou continuar então. Depois disso, conheci uns carinhas que eram programadores. Eles faziam aqueles sites na internet, sabem? Então. Aí comecei a fazer também.

- Ai meu Deus!

- O que você quer dizer? Fala logo… pára de enrolar!

- Bom. É isso que vocês estão pensando mesmo. Eu sou um nerd!

- Pelo amor de Deus! Minha Virgem da Conceição! Valha-me meu Santo Felisberto!

- Não fala essas coisas perto da sua mãe! Olha… ela tá passando mal!

- Não entendo por que… Eu sou nerd mesmo! E gosto de ser. Sou nerd desde a hora que acordo até a hora que durmo. Sou nerd dormindo, se quer saber.

- Cala a boca seu moleque! Se continuar eu vou…

- Calma João! Eu tô melhor…

- Poxa vida! Tá na moda ser nerd, gente! As pessoas gostam disso…

- Eu prefiro meu filho gay a isso!!! Que vergonha… o que vou falar no meu trabalho? O que eu fiz de errado???

- Ai Doquinha. Mamãe te ama de qualquer jeito. Pode fazer o que quiser. Até essa coisa de computador também.

- Nossa! Gente… Isso hoje em dia é normal. As pessoas estão ficando mais dedicadas. Elas se especializam em uma coisa, adoram essa coisa e tornam-se nerds. Trabalham porque gostam, e não porque têm que fazer, entenderam?

- Trabalho com prazer… Tá bom! Escuta aqui moleque. Eu trabalho há mais de quinze anos na mesma empresa e nunca gostei. Trabalho é assim… Não é pra gostar. Só serve pra ganhar dinheiro e xingar chefe. Pronto e acabou!

deodnerd.jpg- Vocês são muito infelizes… Não quero mais continuar esse papo. Preciso sair agora. Tenho um freela pra fazer e bancar as parcelas do meu notebook. Depois vou num encontro sobre blogs de tecnologia, e só volto amanhã.

- Calma Doquinha! Não vai jantar?

- Não dá mais tempo, mãe. Tchau pra vocês…

- Tá vendo João! Você tendo chilique aí e espantou nosso filho… é o único que temos. É assim que vai ser.

- Mas Marli… Você não entendeu? Ele é nerd!!! Computadores, sites, web, lan house, notebook… Ele até trabalha com isso! Meu Deus do céu… o que vou fazer?

- Pára de frescura, senta e come! Que coisa…

 

Mau Humor, Ônibus e Tudo Bem…

Friday, May 9th, 2008

onibus_entrada.jpg“Tá atrasado… Hoje essa porcaria de ônibus vem cheia, m*rda!”
“E esse ponto cada vez mais cheio… Inferno!”
“Lá vem ele, vou subir primeiro, não quero nem saber! Essa velhinha demora demais na catraca e…”

- Pode subir, senhora!

- Obrigada.

“Mas que b*sta! Odeio instinto cavalheiro… Tá vendo? Tá vendo? Por que a velhinha já não vem com a grana na mão??? Será possível!”
“Tá cheio de gente… Unf! E gente folgada ainda por cima, mas espera um pouco que já dou um jeitinho…”

- Com licença. Obrigado. | Senhora, com licença. Obrigado. | Senhor, posso?

“Pronto. Cheguei.”
“Ai que saco, me deixa botar os fones. Sem música eu mato um hoje.”
“Hei tia, recolhe esse cotovelo… E não sorria pra mim. Não tô bom hoje!”

*** sorriso amarelo para a mulher ***

“Get up offa that thing / And dance till you feel better…”
“James Brown é do c*ralho!”
“Get up offa tha… ai meu pé, p*rra! Mas que filho da p*ta! Vai ter volta…”
“Sono… Muito sono! Como eu odeio as segundas-feiras!”
“O que será que vai ter pra fazer quando eu chegar no trabalho? Ah! F*da-se, quando eu chegar vejo!”

onibus_lotado.jpg

- Quer que eu segure sua mochila?

- Ah… Obrigado!

“Se deixar cair minha marmita, te mato!”

- Tá cheio hoje, né?

- É…

“Era só o que faltava… Alguém simpatizou comigo logo hoje…”

- Mas daqui a pouco esvazia…

- É, mas se esse motorista saísse na hora, nada disso aconteceria!

- É…

“Puts! Se assustou comigo e deixou cair a mochila… C*ralho! A marmita deve ter virado uma coisa… Prestativa maldita! Não vem com sorrisinho… eu vi seu crime!”

- Desculpe…

- Não tem problema, tudo bem.

“Tudo bem… tudo bem… Sei. Por que minha boca nunca me obedece?”
“Odeio esse mau-humor! Odeio odiar todo mundo! Odeio respirar! Odeio você! Odeio tudo! Odeio até aquela criança que tá ali dormindo e… Puts! Eu vou pro inferno… é certo.”

- Então, mas você não me parece bem… Quer conversar?”

“… mas não é possível! Agora ela acha que é minha amiga. Nem sabe meu nome e já quer que eu abra minha vida pra ela? Intrometida!”

- Não… Tudo bem, tudo bem.

- Certo então.

“Não pareço bem… não pareço bem… Tá bom… E ela com essa barriga mole e…”

- Porque se quiser falar algo, é sempre bom. Sabe como é… A gente fica guardando as coisas e chega uma hora que explode. Se quiser é só dizer…

“… não é possível! Não mesmo… Como ela sabe que eu…”

onibus_pb.jpg- Olha, vagou aqui… Pode sentar.

- Ah! Obrigado.

- Por nada… e se você estava com vergonha das outras pessoas, agora é a hora. Fala um pouco, vai lhe fazer bem…

- Ah… é… Não. Eu tô bem… Obrigado, viu?!

- Não por isso.

“Ela continua me olhando… Eu queria tanto falar e…”

***E desce a lágrima***

- É que minha namorada fez… E minhas contas venc… Meu trabalho vai me…

***15 minutos depois de muito choro soluçante***

- … então, meu filho, tem que fazer as coisas com mais calma, viu?

- Sim senhora, obrigado!

- Vai com Deus. Acho que esse ponto é o seu…

“Como essa mulher sabe qual é meu ponto? Cara… isso é muito estranho.”

- É esse mesmo… Obrigado de novo. Tchau.

***acenou com a mão e desceu do ônibus visivelmente alterado***

“Que senhora mais bacana…”
“P*ta que me pariu! Nem perguntei o nome dela… Puts! Bom, mas amanhã eu pergunto. Vou pegar sempre o ônibus desse horário. Tem tanta gente legal…”