Mãe Joana e o Rato Mexicano
Tuesday, October 14th, 2008
Em seu consultório, Mãe Joana fazia seus “querequequê” preparando uns patuás pros clientes que ali iam. Eram patuás contra mau-olhado e proteção contra feitiços leves. Só 50 reais. No que estava ao meio da linha de produção de mandingas, Mãe Joana ouve os gritos estridentes de sua auxiliar número um, a Jozicléia.
- Mãezinha! Ô mãezinha! Me acuda!
- Ê Ê! Mas o que foi, mizinfia?
- Mãezinha… ali ó. Tá ali ó!
- Ali onde? O que é que suncê tá vendo?
- É desse tamanho, ó…
- O que é desse tamanho todo?
- Ai minha Nossa Senhora! Ai meu pai…
- Desembucha de uma vez, mizinfia!
- Um rato enorme! Um rato!!!
- Ê Ê! Corre mizinfia… Corre muito que o bicho é dos grande!
- Ai mãezinha… Não dá pra senhora usar um de seus poderes?
- Dá não… Dá não… Isso só pode sê trabaio feito pra nóis perdê os cliente. Que diabo de rato feio! Tem de pegá o bicho pra nóis podê demandá! Vai mizinfia… Isso é coisa pra suncê fazê! Mata ele… Mas não olha muito não. O bicho é feio e veio lá das profundeza!
- Ah não! Eu é que não vou lá…
- Ah vai sim mizinfia! Vai… Anda!
- Não mãezinha… tenho muito medo de rato. Deixa eu subir nessa cadeira com a senhora…
- Não… vai subi não! E escuta a Mãe Joana. Mizinfia tem que vence as provação da vida, e essa é uma… Mata o bicho!
- Não mãezinha… Por favor. Não quero passar por essa provação.
- Anda mizinfia! Eu vô ficá daqui de cima da cadeira pra chegá mais perto de Deus. Vô pedi pra suncê tê coragem e muita força! Suncê vai precisá de força… o bicho é grande por demais… Ê Ê!
- Ai mãezinha…
- Pára de chorá e vai logo! Tenho cliente daqui a pouco… Não quero que a madame ache que casa de Mãe Joana é suja e cheia de rato. Anda!
***
- Ufa! Ai mãezinha… só a senhora pra me fazer vencer meus medos. Tá aqui o bicho.
- Minha Nossa Senhora! Que coisa feia… Vô descobri quem fez esse trabaio aqui. Isso não é criatura de Deus não, mizinfia. Isso é o bicho que mora nos quintal do coisa-ruim.
- É mãe… Tem tamanho de rato, parece um gambá atropelado, mas rosna igual cachorro, sem falar nessa coleira que tá escrita “Augusto Henrique”. Mãezinha, por que o coisa-ruim iria batizar seu bicho de “Augusto Henrique”?
- Ah mizinfia, o capeta põe os nome que acha que vai confundi o povo daqui da terra…
- Hummm…
***
- Boa tarde dona Laurinha!
- Boa tarde Jozi… Vim pra uma consulta com Mãe Joana. Tá marcada.
- Eu sei. Se a senhora aguardar um minutinho, já anuncio que chegou.
- Tá bom. Mas Jozi, deixa eu lhe perguntar uma coisa.
- Claro, dona Laurinha.
- Andes de eu entrar, deixei meu filhote aqui e fui ali naquela loja em frente ver um vestido lindo que quero comprar. Você viu meu filhote?
- Filhote?
- Sim. Um cãozinho lindo desse tamanho…
- Hum…
- É um “pelado mexicano”… Caríssimo! Meu marido comprou pra mim de presente de bodas.
- Hum…
- Você não viu por aí?
- Vi não… Mas deve ser lindo! A senhora fique a vontade que vou lhe anunciar.
***
- Licença mãezinha?
- Fala mizinfia… Laurinha já chegou?
- Chegou sim. Mas sabe o rato morto?
- Tá aqui ó… Eita bicho lazarento!
- Pois é. Esconde ele rapidinho… vai por mim.

